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GUSTAVO SILVESTRE, MODA E SUSTENTABILIDADE NA PRÁTICA


Nascido em Recife, Gustavo Silvestre é   designer, artista, artesão e professor pós-graduado em artes manuais para a educação. Conduz a técnica do crochê para o campo da experimentação dentro do pensamento da arte, moda e sustentabilidade. Por meio de uma iniciativa voluntária, leva arte, afeto e design para dentro da prisão, promovendo transformação social a partir do crochê.

Desde muito jovem, Gustavo se lembra de observar as mulheres de sua família reunindo-se para abrir suas caixinhas para crochetar, “eram verdadeiros tesouros que elas tiravam dali - linhas, fios e agulhas”. Um costume que ele observava de longe, já que sempre escutou que crochê era coisa de mulher. Algo que, décadas mais tarde, Gustavo mostraria não ser verdade. O artista não só se tornaria um exímio crocheteiro, como criaria o Ponto Firme, projeto no qual ensina crochê em um dos ambientes mais machistas da sociedade, a cadeia.

De lá pra cá, Gustavo, que já havia encontrado no crochê uma forma de ressignificar seu trabalho com a arte, descobriu que a técnica poderia ser também uma ferramenta de educação, tendo como referencial teórico autores como os filósofos Gilles Deleuze, Michel Foucault, o iluminista Cesare Beccaria e o educador Paulo Freire.

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, com prisões que estão quase 70% acima de sua capacidade, e totalizam 750 mil presos. Em três anos, data do último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), o país recebeu mais 61 mil presos para as suas celas já superlotadas. Uma maioria de pessoas negras, pobres (61% dos presidiários possuem esse perfil, enquanto apenas 53,63% da população brasileira têm essa característica), e desescolarizadas (75% desses presos não possuem ensino fundamental completo).

É com essa realidade que Gustavo Silvestre se depara semanalmente, desde que começou o Projeto Ponto Firme. Desde 2015, o artista oferece, voluntariamente, capacitação técnica em crochê para detentos da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, São Paulo.

Em seu projeto socioeducacional, o artista olha para essa ferida social que é o encarceramento, revelando a humanidade que resiste dentro de um sistema criado para vigiar e punir. Em cinco anos de projeto, a iniciativa que se destaca por seu valor estético, foi tema de diversas matérias jornalísticas, e já virou exposição de arte na Pinacoteca do Estado de São Paulo, na SP-Arte, desfiles na Semana de Moda de São Paulo (SPFW) e até mobiliário de uma loja em Nova York. 

GUSTAVO SILVESTRE. FASHION AND SUSTAINABILITY IN PRACTICE

Born in Recife, Gustavo Silvestre is a designer, artist, craftsman and post-graduate teacher in manual arts for education. He takes the crochet technique to the field of experimentation within the thinking of art, fashion and sustainability. Through a voluntary initiative, he takes art, affection and design into the prison, promoting social transformation through crochet.

Since very young Gustavo remembers watching the women of his family get together to open their crochet boxes, "they were real treasures that they took out of there - threads, threads and needles". A habit he observed from afar, since he always heard that crochet was a woman's thing. Decades later, Gustavo would prove it is not true. The artist would not only become an expert crochet artist, but he would create ‘Ponto Firme’, a social project in which he teaches crochet in one of the most male chauvinist environments in society, the prison.

Since then, Gustavo, who had already found in crochet a way to reframe his work with art, discovered that the technique could also be an educational tool, having as theoretical reference authors such as the philosophers Gilles Deleuze, Michel Foucault, illuminist Cesare Beccaria and the educator Paulo Freire.

According to the National Penitentiary Department (Depen), Brazil has the third largest prison population in the world, with prisons that are almost 70% above their capacity with more than 750,000 prisoners. In three years, the date of the last National Prison Information Survey (Infopen), the country received 61,000 more prisoners for its overcrowded jails. A majority of black people (61% of prisoners have this profile, while only 53% of the Brazilian population have this characteristic), poor and unschooled (75% of these prisoners do not have completed elementary school).

This is the reality that Gustavo Silvestre has faced weekly since he started the ‘Ponto Firme’ Project. Since 2015, the artist has volunteered technical training in crochet for inmates at the Adriano Marrey Penitentiary, in São Paulo.

In his socio-educational project, the artist looks at this wound that is incarceration revealing the humanity that resists within a system created to discipline and punish. In five years of project, the initiative that stands out for its aesthetic value has been the subject of several journalistic articles, and has already become an art exhibition at the Pinacoteca of the State of São Paulo, at SP-Art, fashion show at São Paulo Fashion Week (SPFW) and even furniture for a store in SoHo, New York.